Archive for 2010

Memórias - Parte III


.

Parte III

«Reserva, aqui vamos nós!». Jacob não conseguia esconder a felicidade que sentia por estar de volta, ao fim de tantos anos podia rever o seu pai e todos os amigos que deixara. Eu era a razão pela qual ele tivera que abandonar a sua identidade, deixar todos os que amava e recomeçar uma vida, uma vida que não era a sua.

«Pára!», gritei eu. E ainda o carro não tinha parado e já estava do lado de fora, imóvel, com o olhar fixo naquela velha carrinha laranja que parecia engolida pela casa de paredes brancas. «Sim» pronunciou o avô Charlie. Eu nem precisei exprimir uma única palavra, sabia bem o que aquele “sim” queria dizer. Aquela era a velhinha carrinha da minha mãe, aquela que estava presente em tantas das suas memórias. Declinei o olhar em direcção ao Charlie e de seguida em direcção ao Jacob, acabando por voltar a fixa-lo naquela peça velha e ferrugenta que gostava de chamar carro. «Posso?», perguntei sem desviar o olhar. Notei a apreensão nos seus movimentos corporais, nenhum dos dois tinha coragem para me deixar conduzi-lo, no entanto também não tinham coragem para me negar um pedido tão inocente.

«Ela já não deve funcionar», retorquiu Charlie. «Jacob? Tu consegues pô-la a trabalhar, certo?». Reparei que esta minha insistência os estava a deixar tensos e preocupados. Decidi, então, antecipar-me e com um sorriso nos lábios disse, «Esta teria sido a minha companheira de viagens se tivesse crescido cá, por isso gostava de experimentá-la. Uma simples volta a Forks com ela, é tudo o que vos peço». Sabia de antemão que eles nunca iriam negar este meu pedido, era um argumento demasiado forte para o ignorarem.

O tilintar de chaves, vindas do bolso do avô Charlie, declararam-me vitoriosa desta minha batalha.

Memórias - Parte I


.

Parte I

Cinco anos passados desde a guerra entre os volturi e os cullen por causa de Renesme. Chegou a hora de voltar a Forks e reviver cada segundo de uma vida passada. Um conto, dividido por capitulos, que ganha vida com as memórias e novidades que Remesme vai encontrando por Forks.

Cinco anos! Sessenta meses! Mil oitocentos e vinte e cinco dias! E muitas, muitas horas de sofrimento!

As imagens daquele dia invadem-me a mente vezes sem conta, apoderam-se do meu ser desgastado e frágil. Aqueles olhos vermelhos repletos de incompreensão e vingança, ainda hoje me aterrorizam. Cada passo rápido que dava ao colo de Jacob, cada olhar distante que lançava para os rostos duros e fatigantes dos meus pais, da minha família e de todos os amigos que num gesto de protecção, tentavam afastar os Volturi e todos os seus discípulos de mim…me assombra.

Olhando agora para fora da janela húmida, a paisagem escura, verdejante e chuvosa faz-me submergir para um plano passado. Forks era sem dúvida alguma, o centro de tudo. Foi aqui que a minha mãe nasceu! Foi aqui que os meus pais se conheceram! Foi aqui que nasci, fruto de um amor lindo e intemporal! Foi aqui que conheci Jacob! Foi aqui que perdi todas as pessoas que mais amava!

«Estás bem?», Jacob pergunta num tom de preocupação. Eu aceno com a cabeça afirmamente, enquanto uma gota cristalina cai desamparada pela minha face pálida. Ainda tento esconder o rosto, mas a lágrima parece pesar toneladas e depressa cai, fazendo soar um ruído poderoso e vibrante quando toca a minha mão.

Quando o carro parou, o meu coração parecia querer saltar para fora. Aquela casa branca trazia-me tantas recordações, umas minhas e outras dos meus pais. Histórias das peripécias que faziam ao avô Charlie quando namoravam. Sorri quando vislumbrei a pequena janela do quarto da minha mãe, imaginando o meu pai a entrar pela calada da noite. O braço forte e acolhedor de Jacob, em meu redor, fez-me acalmar deste misto de emoções. O meu olhar encontrou, agora, o de um homem pálido, com um semblante carregado. Era o avô Charlie. Corri para ele de braços abertos e olhos carregados de lágrimas prontas a transbordar mal tocasse o seu corpo.

Mantivemos o contacto todos estes longos anos, mas nunca mais tinha estado na sua presença.
Desde o simbólico funeral que fizemos à minha mãe e a toda a família Cullen, e a alguns membros dos Quileutes, nunca mais havia estado em Forks. Haviam demasiadas lembranças e o Jacob sempre achou que era melhor ficar-mos por Phoenix. Nunca contestei essa sua decisão, até porque, achava ainda não estar preparada para regressar ao lugar onde tudo começou e onde tudo terminou.

Autora: Mia Afonso

Memórias - Parte II


.

Parte II

No exíguo percurso pelo hall de entrada, mil e uma foram as imagens que num flash me vieram à cabeça. Era capaz de ver os meus pais a correr pelas escadas, de ouvi-los rir. Dei por mim a seguir aquela imagem desfocada até ao quarto da minha mãe. Parei na porta branca, fechada, e onde se podia ler «Bella». Abri-a com delicadeza, tentando fazer pouco barulho. Lá estavam eles, deitados na cama, agarrados, como se de um só corpo se tratasse.

Uma mão quente apertou-me o ombro e me trouxe de novo para a cruel realidade. Naquele silêncio doloroso, as lágrimas batiam no chão como pedras. O barulho forte que faziam, parecia espadas aguçadas penetrando cruelmente em nossos corações. Os olhos pregados naquele quarto vazio traziam a secreta esperança de que num passe de mágica tudo pudesse voltar ao normal. Mas o tempo passou e nada mudou, tudo estava tal e qual havia sido deixado. A voz forte e imponente de Jacob fez-me fechar a porta com a mesma delicadeza com que a abri.

A sala de estar estava silenciosa, de um silêncio perturbador. Os nossos olhos tentavam fixar um ponto exacto, evitando assim um qualquer contacto visual desnecessário ou mesmo doloroso. Quebrei o silêncio com um convite, «Vamos sair um pouco, apanhar ar?». O convite não era bem um convite, apenas uma frase lançada como tema de conversa. Neste momento, a última coisa que queria era sair e ver pessoas, sentir o peso do olhar alheio sobre os meus ombros, ouvir comentários e burburinhos sobre mim e sobre a minha família desgastada pela dor.

Jacob foi o primeiro a gostar da ideia, «Isso! Vocês estão mesmo a precisar de sair um pouco e colocar a conversa em dia. Eu, assim, aproveito para ir até à reserva». Charlie tentou mostrar um sorriso entusiasmado, no entanto eu sabia que a sua vontade de sair era tanta como a minha. Porém, sorri de volta.

Um barulho estridente interrompeu a nossa prenunciada partida. Era do posto da polícia, o avô Charlie era preciso na esquadra. Estremeci só de pensar que poderia ficar ali em casa, sozinha com os meus fantasmas. O ar começou a fugir-me dos pulmões, deixei de respirar, entrei em pânico com todos os meus pensamentos sombrios. Felizmente, Jacob percebeu a minha aflição e depressa correu a meu auxílio, segredando ao meu ouvido «respira, respira, respira…».

Autora: Mia Afonso

Lua-de-Mel


.

A Ilha de Esme foi palco de um dos momentos mais importantes que Bella e Edward tiveram. Depois de um casamento lindíssimo, eis que chega a lua-de-mel.


Rezava para que aquele momento durasse para sempre. O meu coração pedia para que o tempo parasse naquele olhar enternecedor que Edward me lançava. Era tudo demasiado surreal. O som das ondas rebentando na areia clara da praia, quebrava o silêncio das palavras. A luz prateada da lua iluminava dois corpos rígidos distanciados por um desejo quase mortal.

Era difícil controlar-me naquele momento de encantamento, de puro desejo. Agora queria ser humana, queria experimentar este lado mais carnal e incontrolável que abalava a minha espécie. Os olhos doces de Edward diziam-me que o desejo era mútuo, mas o seu corpo rígido mostrava-me um controlo demasiado forte para que nada disto sucedesse.

Uma aproximação, agora, talvez não fosse a melhor ideia. A sua reacção protectora sobre mim provavelmente se tornaria num afastamento rápido e eficaz, mas por outro lado, numa opção quase diminuta, ele poderia gostar e esquecer todas as barreiras que existiam. Era arriscado, eu sabia. Mas já não conseguia ficar mais tempo naquele impasse sedutor. O meu sangue fervilhava, as minhas hormonas saltavam juntamente com o meu coração, cada vez que a minha mente imaginava um encontro mais profundo.

O movimento do meu corpo na sua direcção fê-lo estremecer. Observei o pânico no seu olhar, a incerteza e a certeza das minhas intenções. De certa forma era divertido vê-lo ali, quieto, rígido e meio perdido nas suas teorias do certo ou errado. Sem nunca desviar o olhar, os meus lábios ficaram a milímetros dos dele. Podia sentir o calor que imanavam debatendo-se com a vaga fria de desejo dos seus lábios. Um pequeno movimento da minha cabeça, foi o bastante para notar uma contracção da sua boca. Parei e tentei arranjar maneira de contornar a situação, agora que estava tão perto não podia colocar tudo a perder.

As minhas mãos foram automaticamente atraídas pelo seu peito firme, percorrendo-o com suavidade e delicadeza, como se fosse a peça mais frágil que alguma fez tocara. O nosso constante olhar quebrou-se para que os meus olhos se fechassem e os meus lábios tocassem o seu pescoço suavemente. Naquele instante apercebi-me que a sua forma de estar, rígida, estava cedendo perante a minha insistência de nos tornarmos num só.

Percorri todo o seu pescoço com pequenos beijos ao mesmo tempo que tentava elevar o meu franzino corpo contra o seu. Nessa ansiedade, senti os seus braços envolverem-me e puxarem-me contra o seu corpo. Sorri e algo dentro de mim declarou-me vitoriosa. Com esse mesmo sorriso, abri os olhos e vislumbrei novamente o seu rosto sublime, antes…antes que os nossos lábios cedessem á força da paixão e do desejo que nos cingia.

Foi perfeito. Encaixaram-se na perfeição, movendo-se em plena harmonia no compasse do clima sedutor que estava formado. As nossas mãos percorriam cada detalhe do nosso corpo, entrelaçavam-se com os fios de cabelos que voavam ao sabor da crescente brisa marítima. O momento foi interrompido pela voz de Edward que numa última tentativa de fazer o correcto me perguntou, «Tens a certeza?». Aproximei-me do seu ouvido e sussurrei, com uma respiração ofegante, «Sim!».

As minhas pernas envolveram a sua cintura robusta e num voo absolutamente maravilhoso, nos refugiamos naquele quarto, amplo e claro, que seria testemunho da oficialização deste perigoso amor.

Autora: Mia Afonso

Querida Alice


.

Passados todos aqueles meses de dor e sofrimento, Bella escreve uma nova carta a Alice. Testemunha-se a revolta e a mágoa que Bella ainda guarda dentro de si , aquando da partida repentina de Edward.
Querida Alice,
Um ano! Um ano, foi o tempo que levei para compreender o mundo em que estava vivendo. Demasiado tempo presa na escuridão de um futuro sem qualquer possibilidade de sucesso.

As desculpas ocupavam as vagas na ausência de uma presença sonhada e desejada. Por quanto mais tempo iria conseguir viver neste mundo obscuro, de mentiras e enganos? Sempre quis acreditar que tudo iria melhorar, que a distância coberta pelo véu cinzento algum dia se dissiparia e aí poderia, finalmente, ser feliz.

Enganos e mais enganos que foram crescendo com o tempo que passava impiedosamente. Nunca quis acreditar! Sempre me recusei a crer no que os olhos de estranhos viam. Eles estavam enganados, não eu!

No final, eu estava enganada. Foi necessário bater bem no fundo do precipício para acordar desta minha viagem vertiginosa por entre bons e maus momentos. Finalmente acordei desta angústia.

A raiva invadiu o meu ser, como nunca pensara ser possível. Um sentimento de amor, carinho e afecto foi abruptamente lançado ao vento e no seu lugar depressa cresceu a raiva, a mágoa e a dura desilusão. As palavras transformaram-se na arma mais mortífera contra alguém…alguém que me fez entrar num mundo de ilusão por demasiado tempo.

As lágrimas são a causa de tanta dor acumulada num coração débil e revolto. Elas não fazem desaparecer a tristeza que sinto, elas apenas me fazem recordar ainda mais quem tento esquecer. A sua passagem, em queda livre, pelo meu rosto traz lembranças e memórias dolorosas. Magoa! Agride! Fere!

Magoa pensar em tudo o que foi ou que poderia ter sido. Faz estremecer todo o meu corpo as lembranças que cada imagem, som ou pensamento me trazem de ti. Tento pensar em retrospectiva e pergunto-me: «Foram bons estes tempos?»; «Foram maus?». Não sei… Ainda não consigo pensar conscientemente e avaliar tudo o que se passou. A raiva e a desilusão é demasiado forte para que consiga pensar ou agir com a mínima nitidez.

Sempre me disseram que deveria dormir uma boa noite de sono antes de tomar qualquer decisão…mas não fui capaz. Ali mesmo, no calor da revolta, expulsei todos e quaisquer sentimentos que estavam guardados bem dentro de mim. Não obtive resposta. Não consigo perceber qual o sentimento que o invade neste momento. Mas, muito sinceramente nem sei se o quero saber. Ao fim de tanto tempo, fui capaz de ver com lucidez o que se estava a passar. Foi duro, mas era necessário.

As lágrimas já secaram, os soluços já cessaram e o sofrimento…bem o sofrimento permanece intacto e permanecerá por muito e muito tempo. É doloroso, contudo essencial para que tenha sempre presente na memória este desenlace e não volte a cometer os mesmos erros.

Odeio-o! Sim, ainda nutro esse tipo de sentimento por ele. Não sei ao certo quando irá desaparecer. Pelo menos, enquanto o meu coração se mantiver despedaçado e desgastado, este sentimento perdurará. Para sempre? Talvez não. Para sempre é um tempo demasiado grande. Talvez para o sempre da duração da dor que sinto. E essa sim, essa irá demorar a passar.

Autora: Mia Afonso