Querida Alice


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Passados todos aqueles meses de dor e sofrimento, Bella escreve uma nova carta a Alice. Testemunha-se a revolta e a mágoa que Bella ainda guarda dentro de si , aquando da partida repentina de Edward.
Querida Alice,
Um ano! Um ano, foi o tempo que levei para compreender o mundo em que estava vivendo. Demasiado tempo presa na escuridão de um futuro sem qualquer possibilidade de sucesso.

As desculpas ocupavam as vagas na ausência de uma presença sonhada e desejada. Por quanto mais tempo iria conseguir viver neste mundo obscuro, de mentiras e enganos? Sempre quis acreditar que tudo iria melhorar, que a distância coberta pelo véu cinzento algum dia se dissiparia e aí poderia, finalmente, ser feliz.

Enganos e mais enganos que foram crescendo com o tempo que passava impiedosamente. Nunca quis acreditar! Sempre me recusei a crer no que os olhos de estranhos viam. Eles estavam enganados, não eu!

No final, eu estava enganada. Foi necessário bater bem no fundo do precipício para acordar desta minha viagem vertiginosa por entre bons e maus momentos. Finalmente acordei desta angústia.

A raiva invadiu o meu ser, como nunca pensara ser possível. Um sentimento de amor, carinho e afecto foi abruptamente lançado ao vento e no seu lugar depressa cresceu a raiva, a mágoa e a dura desilusão. As palavras transformaram-se na arma mais mortífera contra alguém…alguém que me fez entrar num mundo de ilusão por demasiado tempo.

As lágrimas são a causa de tanta dor acumulada num coração débil e revolto. Elas não fazem desaparecer a tristeza que sinto, elas apenas me fazem recordar ainda mais quem tento esquecer. A sua passagem, em queda livre, pelo meu rosto traz lembranças e memórias dolorosas. Magoa! Agride! Fere!

Magoa pensar em tudo o que foi ou que poderia ter sido. Faz estremecer todo o meu corpo as lembranças que cada imagem, som ou pensamento me trazem de ti. Tento pensar em retrospectiva e pergunto-me: «Foram bons estes tempos?»; «Foram maus?». Não sei… Ainda não consigo pensar conscientemente e avaliar tudo o que se passou. A raiva e a desilusão é demasiado forte para que consiga pensar ou agir com a mínima nitidez.

Sempre me disseram que deveria dormir uma boa noite de sono antes de tomar qualquer decisão…mas não fui capaz. Ali mesmo, no calor da revolta, expulsei todos e quaisquer sentimentos que estavam guardados bem dentro de mim. Não obtive resposta. Não consigo perceber qual o sentimento que o invade neste momento. Mas, muito sinceramente nem sei se o quero saber. Ao fim de tanto tempo, fui capaz de ver com lucidez o que se estava a passar. Foi duro, mas era necessário.

As lágrimas já secaram, os soluços já cessaram e o sofrimento…bem o sofrimento permanece intacto e permanecerá por muito e muito tempo. É doloroso, contudo essencial para que tenha sempre presente na memória este desenlace e não volte a cometer os mesmos erros.

Odeio-o! Sim, ainda nutro esse tipo de sentimento por ele. Não sei ao certo quando irá desaparecer. Pelo menos, enquanto o meu coração se mantiver despedaçado e desgastado, este sentimento perdurará. Para sempre? Talvez não. Para sempre é um tempo demasiado grande. Talvez para o sempre da duração da dor que sinto. E essa sim, essa irá demorar a passar.

Autora: Mia Afonso