Memórias - Parte II


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Parte II

No exíguo percurso pelo hall de entrada, mil e uma foram as imagens que num flash me vieram à cabeça. Era capaz de ver os meus pais a correr pelas escadas, de ouvi-los rir. Dei por mim a seguir aquela imagem desfocada até ao quarto da minha mãe. Parei na porta branca, fechada, e onde se podia ler «Bella». Abri-a com delicadeza, tentando fazer pouco barulho. Lá estavam eles, deitados na cama, agarrados, como se de um só corpo se tratasse.

Uma mão quente apertou-me o ombro e me trouxe de novo para a cruel realidade. Naquele silêncio doloroso, as lágrimas batiam no chão como pedras. O barulho forte que faziam, parecia espadas aguçadas penetrando cruelmente em nossos corações. Os olhos pregados naquele quarto vazio traziam a secreta esperança de que num passe de mágica tudo pudesse voltar ao normal. Mas o tempo passou e nada mudou, tudo estava tal e qual havia sido deixado. A voz forte e imponente de Jacob fez-me fechar a porta com a mesma delicadeza com que a abri.

A sala de estar estava silenciosa, de um silêncio perturbador. Os nossos olhos tentavam fixar um ponto exacto, evitando assim um qualquer contacto visual desnecessário ou mesmo doloroso. Quebrei o silêncio com um convite, «Vamos sair um pouco, apanhar ar?». O convite não era bem um convite, apenas uma frase lançada como tema de conversa. Neste momento, a última coisa que queria era sair e ver pessoas, sentir o peso do olhar alheio sobre os meus ombros, ouvir comentários e burburinhos sobre mim e sobre a minha família desgastada pela dor.

Jacob foi o primeiro a gostar da ideia, «Isso! Vocês estão mesmo a precisar de sair um pouco e colocar a conversa em dia. Eu, assim, aproveito para ir até à reserva». Charlie tentou mostrar um sorriso entusiasmado, no entanto eu sabia que a sua vontade de sair era tanta como a minha. Porém, sorri de volta.

Um barulho estridente interrompeu a nossa prenunciada partida. Era do posto da polícia, o avô Charlie era preciso na esquadra. Estremeci só de pensar que poderia ficar ali em casa, sozinha com os meus fantasmas. O ar começou a fugir-me dos pulmões, deixei de respirar, entrei em pânico com todos os meus pensamentos sombrios. Felizmente, Jacob percebeu a minha aflição e depressa correu a meu auxílio, segredando ao meu ouvido «respira, respira, respira…».

Autora: Mia Afonso